Estratégias de sucesso

A inovação é um fator fundamental para que as organizações aumentem a competitividade

Autor: Jacilio SaraivaFonte: Valor Econômico

A inovação não cabe numa caixa. Além de desenvolver produtos inovadores, empresas de todos os portes planejam novos serviços, montam estratégias para envolver os funcionários em um fluxo constante de produção e criam processos inéditos para a distribuição de mercadorias. De acordo com especialistas, é preciso ouvir clientes e fornecedores para fazer da busca pelo novo uma tarefa diária. E, nessa empreitada, algumas companhias já destinam até 50% do faturamento anual em pesquisa e desenvolvimento.

"A inovação é um fator fundamental para que as organizações aumentem a competitividade", afirma Luiz Barretto, presidente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-Nacional). "E quando falamos em inovação, não é só investir em tecnologia, mas em métodos e processos."


Em São José dos Campos (SP), a Altave buscou diferenciação ao criar um novo produto para o mercado de telecomunicações. A novidade é um balão, de hidrogênio ou hélio, que pode levar sinal de celular para áreas rurais remotas, grandes eventos ou regiões atingidas por desastres naturais.

"Já temos um cliente no Nordeste e estamos em negociação com companhias de São Paulo e do Rio de Janeiro", diz o engenheiro aeronáutico Leonardo Nogueira, sócio da empresa fundada no início do ano. "Há interessados também na Guiana Francesa e nos Estados Unidos."

Com sete funcionários e estimativa de investir até 50% do faturamento do primeiro ano de atividades em pesquisas, a receita da Altave para inovar é criar soluções simples que possam resolver problemas tanto no Brasil quanto no exterior.

"O balão é uma alternativa flexível porque suporta diferentes equipamentos eletrônicos, pode ser usado em vários cenários e é de rápida instalação."

Segundo Nogueira, entre os fatores fundamentais para a entrada da inovação na empresa foi o local escolhido para a sede. Além de conhecido polo aeroespacial, a cidade de São José dos Campos abriga o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), de onde vem a maioria dos funcionários, inclusive os sócios da companhia.

"Todos aqui podem propor novas maneiras de fazer, vender ou operar", afirma. "Já iniciamos estudos para criar outra solução que poderá substituir os satélites em algumas aplicações", Leonardo Nogueira.

Para Guilherme Ary Plonski, presidente da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), as empresas podem abraçar a inovação independentemente do porte de seus negócios. "Mas é preciso capacitar os colaboradores em gestão da inovação e criar times especiais", diz.

Na Editora Moderna, de títulos didáticos e de literatura, todos os 600 funcionários são motivados a manter a "cultura inovadora" em suas rotinas. "A partir de 2007, sistematizamos a busca pela inovação como parte do trabalho diário", afirma o diretor de marketing Miguel Thompson. "Com ajuda de uma consultoria, um grupo multidisciplinar de gestores foi organizado para registrar as primeiras ideias."

Em 2009, a empresa criou um prêmio para reconhecer funcionários com sugestões inovadoras em produtos, serviços e processos. Na primeira edição do concurso, quatro dos 21 projetos apresentados foram premiados e um deles estimulou o desenvolvimento de uma nova coleção de livros didáticos, lançada em 2010. Com recursos digitais, a série Moderna Plus cobre desde a educação infantil até o ensino médio.

No ano passado, a competição da editora recebeu mais de 30 projetos, de 80 colaboradores. 20% dos trabalhos apresentados até hoje já foram aproveitados. "Para inovar, a empresa deve abrir espaço para que as ideias partam de todos os funcionários, sem distinção de cargo", ensina Thompson. "Os projetos não devem contar com intermediários ou passar pelo crivo dos chefes. O objetivo é compartilhar", observa ele.

Segundo Bruno Rondani, diretor do Centro de Open Innovation Brasil (Coi-Br), associação criada para disseminar conhecimentos sobre inovação, a prática não pode depender de uma ou duas pessoas geniais nas organizações, destinados a produzir diretrizes para o futuro da empresa. "A inovação é um processo interativo e aberto. Os projetos surgem de qualquer lugar e as competências, infraestrutura e o conhecimento para desenvolvê-los também podem estar fora da companhia", afirma.

Para o especialista, as empresas podem conseguir uma maior colaboração dos funcionários dando evidências de que a inovação é uma prioridade da direção. "Não adianta implantar programas de inovação se a companhia pressiona o quadro para a entrega de resultados a curto prazo", avisa.

"O que importa não é o tamanho do negócio, mas a importância que se dá à inovação como fonte relevante de desempenho, competitividade e receitas futuras", avalia Bruno Rondani.

 

Conceito do design thinking entra na pauta da criação
 

Por Carmen Nery


O conceito de design thinking está entrando no universo brasileiro da criação. O termo foi cunhado há cerca de cinco anos pela Ideo, empresa de design de Palo Alto, na Califórnia, para definir o método de inovação e design que foca na compreensão, por meio da observação direta, das coisas que as pessoas gostam ou não gostam, querem e precisam, ainda que elas não tenham consciência disso.

Há pelo menos três anos o design thinking vem sendo empregado por companhias inovadoras brasileiras em áreas que vão do desenvolvimento de produtos e serviços a processos de implementação de software e inovação social. A própria Ideo atende empresas brasileiras como a Positivo, que já desenvolveu quatro produtos com esta técnica, e o Itaú, que está conduzindo uma amplo esforço de inovação em diversas áreas.

Mas começam a surgir no país empresas especializadas, como a Design Echos, que atua na área de inovação social e desenvolveu um projeto para a Fundação Telefónica, e a MJV, que participa de alguns projetos do Itaú, desenvolveu para a Seguradora Mapfre um projeto de inovação em atendimento e serviços para segurados do ramo de automóveis, e está iniciando com a Mills um projeto para implantação do SAP.

Segundo Ysmar Vianna e Silva, presidente da MJV, o design thinking permite aplicar os processos que os designers utilizam no desenvolvimento de projetos para resolver problemas corporativos. Isso envolve buscar as necessidades das pessoas a serem impactadas pelo produto, processo ou modelo de negócio. "Trata-se de um mergulho em pessoas por meio de observação de etnografia, que é uma maneira de fazer pesquisa de antropologia cultural, diferentemente de pesquisas quantitativa e qualitativa", diz.

Em um projeto de design thinking, uma equipe multidisciplinar vai a campo para observar o comportamento das pessoas e interagir com elas. Desta observação são gerados insights e criados modelos multimídia. As ideias têm que passar pelo crivo da verificação, por meio da criação de protótipos que são validados com pesquisas de campo novamente.

A Design Echos teve o desafio colocado pela Fundação Telefónica de em oito dias coordenar o desenvolvimento do projeto para a sede do programa Lua Nova, que abriga meninas de rua que já são mães e estão em situação de risco social. O design thinking foi utilizado para coordenar o trabalho dos dois arquitetos e 12 estudantes de arquitetura que foram a campo conversar com as meninas e levantar todas as necessidades. "Usamos os conceitos de empatia, colaboração, co-criação e experimentação como preconiza o conceito, pesquisando o contexto das meninas. O objetivo era ter uma abordagem mais humana para projetar que soluções fariam sentido para elas", diz Ricardo Ruffo, presidente da Design Echos.

Na Mapfre o conceito foi adotado em uma estratégia de inovação e diferenciação. Segundo, Paulo Rossi, diretor de marketing, a ideia era acabar com a imagem de que o setor de seguros é uma indústria que 'não entrega o produto'. Para ele, muito dessa percepção negativa é porque as pessoas não sabem o que efetivamente contratam.

A empresa reuniu uma equipe de advogados, sociólogos, antropólogos, designers, atuários, profissionais de marketing e de desenvolvimento de produtos para conduzir o projeto Mapfre 2016, que vai consumir R$ 100 milhões em cinco anos. Essa equipe foi in loco verificar o que acontece quando o cliente precisa usar o seguro - observando o comportamento nos locais do acidente, em oficinas e nos reboques.

O primeiro projeto, o Traduzindo o Segurês, resultou em um modelo de apólice multimídia, com imagens e um kit de bolso com todos os passos que o segurado precisa dar a partir do momento do acidente. Outra iniciativa foi criar para cada um dos 1,5 milhão de segurados de automóveis uma página exclusiva na internet com private URL, com todas as informações referentes a sua apólice. O projeto entrou no ar em março e foi premiado com o Top de Marketing da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB).

A Mills, que atua com aluguel e vendas de equipamentos para o segmento de infraestrutura, utilizou o design thinking para aproveitar a implantação do novo sistema de gestão empresarial SAP, para impregnar na empresa uma cultura de inovação. "Precisávamos de um instrumental metodológico que nos permitisse antecipar situações, evitando erros comuns em projetos desta natureza, em que se despreza a perspectiva humana e principalmente a dos nossos clientes", diz Alexandre Muniz, gestor de TI da Mills. No projeto, uma equipe multidisciplinar vai simular experiências, encorajando os usuários a colaborar no desenvolvimento de melhorias.

A Positivo começou a trabalhar com a Ideo há quatro anos. Segundo Adriana Flores, diretora de desenvolvimento de produtos, o design thinking foi usado, entre outras áreas, no desenvolvimento do tablet YpY, lançado em setembro, e que consumiu 20 meses de pesquisas sobre o comportamento do consumidor. A partir desse trabalho a Positivo criou o Human Lab, um laboratório para pesquisas e prototipação com consumidores.
 

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